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Dos pseudo-amores

Quando a fidelidade passar a ser um prémio extra de uma relação, yada yada yada, não tens razões para me deixares, eu resisti sempre aos prazeres dos outros corpos, e tive muitos convites, não foi fácil não ceder, então o mundo está arruinado.

A proposito das Tunisias

A televisão tem o dever de informar os cidadãos, certo, mas isso implica exibirem imagens de corpos estendidos no chão ao abandono, com rios carmim a brotar de onde a violência foi feita? E as famílias, que umas horas antes estava tudo fresco e fofo e assim, sem dó, cai-lhes o inesperado aos pés, hum? Onde mora o respeito pelo luto? Longe longe da caixinha maravilha.

Da falta de juizo

Não entendo aqueles pais que levam os seus pequenos para as mega festas de passagem de ano. Naquelas idades, os meus Anos Novos eram em casa a ver filmes de animação, a bater as panelas na janela da cozinha ao ritmo das doze badaladas, a espreitar o eventual tão-pequenito-que-quase-não-chega-à-categoria-de-fogo-de-artifício da freguesia do lado e a fazer cara feia ao cheiro do champanhe da gente grande. Não andava cá ensardinhada no meio das multidões alcoolizadas de cerveja e bebidas brancas.

Da terceira pessoa

Faz-me tanto eczema aqueles pais que tratam os filhos por você e os obrigam a chamá-los da mesma forma, a sério, percebo que seja até uma questão de tradição porque cinco andares de árvore genealógica o fizeram, mas ver um pinipon de quatro anos com a mãe numa conversa de Filha, você ainda não tem idade para brincar com essas coisas, intriga-me. Somos vinte-e-três-pai-vinte-e-três-mãe, produtos daqueles colos, se essa intimidade não me fosse suficiente para o uso da segunda pessoa, não sei onde mais a iria encontrar.

Das vuvuzelas dos vizinhos

Domingo de Páscoa, benfiquistas na loucura.

Da crise na carteira

Eu e a Bia estávamos hoje a contar os trocos que tínhamos na carteira quando nos apercebemos que a maioria dos euros eram espanhóis, franceses ou gregos. Portuguesas, só umas moedinhas de dez cêntimos, que aqui gastar dinheiro é luxo de estrangeiro. Nunca tinha olhado a crise de tão perto.

11 de Setembro

É impressão minha ou pela primeira vez o dia de ontem passou muito despercebido?

Onde paira a justiça?

Fui ao hospital fazer análises. Na sala de espera, sentei-me ao lado da recepção. Senha 121, uma moça de vinte e poucos anos, toda coqueluche fashion victim, entrega a requisição das análises à secretária que a atende. Esta pergunta-lhe se é ou não isenta e a coqueluche, dos seus saltos altos, dispara um ríspido Sou, não tem aí o meu registo para ver? Sem mais palavra, retorna ao seu lugar. Minutos depois, Senha 125, uma velhota de costas vergadas pelo peso dos anos, caminha com o auxílio da filha assumo, dirige-se à recepção. A burocracia repete-se,
- A senhora é isenta?
- Já fui menina, já fui...

E riu-se. Não podendo fazer mais, riu-se.
Digam-me meus senhores, onde paira a justiça?