2016 em opiniões literárias - Afonso Cruz

Para Onde Vão Os Guarda Chuvas
Afonso Cruz
Editora Alfaguara

"Para onde vão os guarda chuvas? São como as luvas, são como uma das peúgas que formam um par. Desaparecem e ninguém sabe para onde. Nunca ninguém encontra guarda chuvas, mas toda a gente os perde. Para onde vão as nossas memórias, a nossa infância, os nossos guarda chuvas?"

Para Onde Vão os Guarda Chuvas é o primeiro romance de Afonso Cruz na minha estante. Atraída pelo título e pela beleza das ilustrações, adquiri-o de olhos fechados para a sinopse e, confesso, estou tão feliz por o ter feito. Numa prosa de vidas reféns de um Oriente pintado a cor de cereja, conhecemos Fazal Elahi, um homem que sonha ser invisível como as paredes; Bibi, o seu amor de cabelos pretos rebeldes como pássaros; Aminah, a irmã que desespera por um casamento que lhe traga perfumes estrangeiros e sapatos de salto alto; Salim, filho de sangue, e Isa, filho de coração. Ao longo do livro, vemos os seus caminhos entrelaçarem-se de uma forma maravilhosamente fluída, em avanços e xeque-mates do mesmo tabuleiro de xadrez.

Mais do que uma história com início, meio e fim, esta é sobretudo uma reflexão sobre a perda de alguém que nos é muito, e a dor que essa ausência causa no peito. Será esta uma dor curável? E para onde vão todas as coisas que amamos e perdemos, as memórias, as mães, os pais e os filhos, que de repente desaparecem e não voltamos a encontrar? Afonso Cruz responde-nos de forma soberba nestas páginas, escritas com um sentido de humor tão simples e ingénuo e moldadas pelas contradições do ser humano. Para terminar, um final aberto que deixa um arrepio na espinha e o coração apertado. Há tanto para dizer e nada chega para fazer justiça a Para Onde Vão os Guarda Chuvas. Converti-me aos imaginários de Cruz num ápice e acredito que qualquer pessoa que se envolva na sua escrita dificilmente sairá do seu mundo de amor e metáforas.

O dia da mãe

Naquela noite fúnebre era dia da mãe. Na cozinha, uma mesa com quatro lugares, três deles ocupados por vultos de traje negro, dois pequenos de olhar fosco e feições de mármore, um maior de jeito vencido e aliança no anelar direito. No lugar vazio a aliança par, de lúmen oco. Pela primeira vez era dia da mãe sem haver mãe, fora levada de madrugada por uma dor na nuca e um ai! tão veloz que não deixou espaço para O que se passa queridas ou cento e dozes, duas letra e a luz tomou-a nos braços, assim, como um soluço que vem sem avisar, faz o seu trabalho e dissipa-se, deixando apenas uma sensação de surpresa incrédula à sua passagem.
- Nem houve despedidas, pai. É tão injusto.
- Ela despediu-se o melhor que pôde.
Era o último ditongo da mãe, um adeus, um sejam felizes, um amo-vos muito no ai! que deixou o lugar vazio na mesa para quatro.

Dos oftalmodramas

No início do Verão andei cheia de dores nos olhos, calculei que fosse de passar os dias a ler, estudo que cruz me fazes carregar, mas que eventualmente passaria. A coisa agravou, fui ao oftalmologista e voilà, tinha o eixo do astigmatismo virado do avesso.Mudei de lentes, as dores acalmaram. Entrei de férias, deixei o estudo e cá estão elas outra vez como bicho latente à espera da melhor altura para morder outra vez. Não é justo, beicinho.

Do meu bogas

Quando uma pessoa se habitua ao carro para ir a qualquer lado, a falta que ele deixa na semana da inspecção.

Das leituras

A meio de Para Onde Vão os Guarda Chuvas, Afonso Cruz é pessoa feita de mel e estrelas.

Das reflexões

Sempre alimentei a minha rotina de regras e horários. Não diria que os meus pais são pessoas rígidas, mas sim que este foi um traço que incutiram em mim, e sim que é uma mais valia em momentos que requerem organização e rigor. Sou minuciosa a cumprir calendários de estudo, consigo enlatar um leque de actividades num horário de meio palmo, raramente estou atrasada ou me faço esperar. Mas tenho também um traço obsessivo capaz de transformar facilmente o melhor no pior, como um ponto de cozedura frágil de margens. Tornei-me ávida de listas, horários, procuro equações para uma solução perfeita, sigo-as como religião, quem sabe não será a existência perfeita explicada pela matemática básica, deus criou com números o mais belo da natureza, a sequência de Fibonacci que não revelou a ninguém. Mas o rigor deixou de ser adaptativo, descontrolei-me no controlo excessivo, rendo-me submissa a ponteiros, vejo-me ansiosa se a agenda muda sem aviso, se algo sai fora do plano, se a rotina deixa de ser rotina. Amedronta-me viver relaxada e sem prazos, sobretudo porque por trás de tudo isto escondi sempre o medo do desconhecido. Retraio-me à novidade porque não lhe conheço a equação, logo não lhe antevejo o resultado, se brota a vontade de arriscar corto-a pelas raízes, e se correr mal? e se esse for o caminho errado? e se não souber voltar atrás, à rotina que sempre foi minha? que nunca (faço-me acreditar) me deixou mal?
Se o reconheço, posso mudar, quero mudar. Não há almas imutáveis. Quero aprender a saborear os dias com o gosto do minuto presente, não com o azedume do minuto seguinte, quero aprender a perder-me sem medo do não retorno, regozijar-me com o que o imprevisto trás na barriga, sugar-lhe o bom de entre o mau, e quem diz que o imprevisto só traz trevas e bichos de patas longas no ventre?
Viver feliz não tem carris nem horas marcadas.

Das leituras

Acabadinho de ler, posso dizer que Irène é dos policiais mais originais e excitantes que já li. Um livro de crimes sobre crimes baseados em livros, um altar de adoração ao género literário, repleto de morbidez talhada numa escrita lacerante. Vai directamente para o topo das melhores leituras de dois mil e quinze.