A biblioteca

Todas as manhãs às sete horas exactas, o despertador cacarejava, revirava-se nos lençóis, uma pancada suave no stop e em menos de dois suspiros estava a pé. O café com leite e um pau de canela, as torradas em pão de forma cortadas em tiras de mel, dez minutos até o estômago se mostrar de sorriso cheio. Vestia-se na rapidez de um soluço, como se a pele que lhe forrava o corpo não suportasse o abraço do ar terrestre. Saía de casa às sete e meia sem falta, nunca depois, o ritual só se via cumprido na totalidade se a sua chegada assistisse à abertura das portas do palácio dos livros. Sentava-se na cadeira da almofada azul, ao lado do vaso de loiça oriental, enquanto preparava Chopin para lhe sussurrar aos ouvidos. Hoje caminhava à prateleira dos f's, todo o alfabeto para trás já o tinha gasto com os seus olhos avidos de letras. Adquirindo o seu jeito de conforto, pernas cruzadas à chinês para não destoar da loiça, assim permanecia horas a fio, concentrada nos retalhos de história que alguém tinha cozido para si. Não havia minuto desperdiçado por distrações até ao momento das luzes dormirem no silêncio das pessoas ausentes, Já sabe que vamos fechar daqui a nada, amanhã pode acabar a leitura. E com a sua partida assistindo ao fecho das portas do palácio dos livros, regressava ao pequeno mundo exterior, onde os limites eram feitos do real e do finito, para repetir tudo no dia seguinte.

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