Das cores

Gosto de pintar o mundo a cores. Acordo, pinto o dia de azul bebé e amarelo adulto, esborrato uma mancha castanho queimado e vermelho framboesa se houver tostas para o pequeno almoço, outras vezes um borrão laranja se o meu pai tiver saído para o trabalho enquanto dormíamos, deixando um jarro de sumo fresco na bancada como que a dizer Bom dia meus bens. Saio de casa, salpico o chão que piso de preto e branco, preferia verde forte com uma pincelada magenta aqui, uma violeta acolá, mas quem inventou a calçada portuguesa quis combinar os extremos da fita cromática num xadrez rústico e assim respeito. Às vezes é inverno no meu peito e pinto o dia de cinzento, não há azul bebé nem castanho queimado, laranja ou amarelo adulto, apenas e literalmente 50 shades of grey, como uma fotografia velha à qual a luz e a humidade sugaram o contraste. Não gosto muito desses dias. Gosto mais de pintar o mundo a cores.

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