Para Onde Vão Os Guarda Chuvas
Afonso Cruz
Editora Alfaguara
"Para onde vão os guarda chuvas? São como as luvas, são como uma das peúgas que formam um par. Desaparecem e ninguém sabe para onde. Nunca ninguém encontra guarda chuvas, mas toda a gente os perde. Para onde vão as nossas memórias, a nossa infância, os nossos guarda chuvas?"
Para Onde Vão os Guarda Chuvas é o primeiro romance de Afonso Cruz na minha estante. Atraída pelo título e pela beleza das ilustrações, adquiri-o de olhos fechados para a sinopse e, confesso, estou tão feliz por o ter feito. Numa prosa de vidas reféns de um Oriente pintado a cor de cereja, conhecemos Fazal Elahi, um homem que sonha ser invisível como as paredes; Bibi, o seu amor de cabelos pretos rebeldes como pássaros; Aminah, a irmã que desespera por um casamento que lhe traga perfumes estrangeiros e sapatos de salto alto; Salim, filho de sangue, e Isa, filho de coração. Ao longo do livro, vemos os seus caminhos entrelaçarem-se de uma forma maravilhosamente fluída, em avanços e xeque-mates do mesmo tabuleiro de xadrez.
Mais do que uma história com início, meio e fim, esta é sobretudo uma reflexão sobre a perda de alguém que nos é muito, e a dor que essa ausência causa no peito. Será esta uma dor curável? E para onde vão todas as coisas que amamos e perdemos, as memórias, as mães, os pais e os filhos, que de repente desaparecem e não voltamos a encontrar? Afonso Cruz responde-nos de forma soberba nestas páginas, escritas com um sentido de humor tão simples e ingénuo e moldadas pelas contradições do ser humano. Para terminar, um final aberto que deixa um arrepio na espinha e o coração apertado. Há tanto para dizer e nada chega para fazer justiça a Para Onde Vão os Guarda Chuvas. Converti-me aos imaginários de Cruz num ápice e acredito que qualquer pessoa que se envolva na sua escrita dificilmente sairá do seu mundo de amor e metáforas.