Pormenores



Dos acidentes idiotas

Como ficar sem um farol e um pisca em três segundos, andar num estacionamento a dez à hora e bater com o focinho do carro no chasso mais velho e mal estacionado da zona.

As palavras cruzadas

Pessoa vigia o café que arrefece sobre a mesa enquanto eu te encontro nas palavras cruzadas do dia anterior, dois vertical, quatro letras, inclinação da alma e do coração. Por cada letra desenhada, um arrepio da pele virgem à vida recém nascida, só a novidade dá permissão ao êxtase, mesmo aquela que então rotina se tornou, cinco horizontal, seis letras, sentimento de satisfação do ser. Os finos lábios da esferográfica azul selam à confiança o carvão impresso, enquanto os meus querem os teus num beijo de fogo húmido, vês como até a chama mais quente pode molhar?, e conduzidos pela vontade ao teu corpo se arrastam, adivinhando o caminho sem errar, como não sei, talvez apenas se desloquem para o lugar onde pertencem, dois horizontal, seis letras, sentimento intenso de atracção. As palavras agora completas tornam-se unas na história que esboçam, o romance que repetidamente contamos no silêncio da noite, três vertical, sete letras, narração histórica em versos simples de assuntos do coração. O céu escurece, o café arrefece e eu sorrio, por te ter encontrado nas palavras cruzadas do dia passado, sob a vigia apertada de Fernando Pessoa.

Do 2014

Comecei o ano com cirurgia, ou como quem diz com o pé esquerdo. Juntei-me a uma nova turma. Tive medo de ser rejeitada. Achei que já era capaz de enfrentar os meus medos sozinha. Vacilei e voltei à felicidade fingida do casulo. Ganhei juízo. Apresentei o meu primeiro poster científico num congresso. Não levei o prémio, mas fiquei entre os três melhores. Perdi a minha dança do coração no dia em que me vi pronta para a retomar. Atrevi-me a fazer rir públicos de microfone em punho. Escrevi stand-up, páginas de stand-up. Fizeram-me fumadora passiva durante horas a fio. Resolvi pontas soltas de laços desapertados, mas não todas com pena minha. Percebi que as pessoas especiais descobrem-se nas circunstâncias mais negras. Aconteceram-me os amigos de uma vida. Vi dois concertos do Zambujo sem pagar um tostão. Beijei sob o frio da chuva. Chorei sob o frio da chuva. Vi uma psicóloga na minha mãe. Assisti pela primeira vez à ante-estreia de um filme. Fui feliz na Eslovénia. Provei gelado de raffaelo. Viciei em gelado de raffaelo. Partilhei quartos, segredos e uma garrafa de azeite. Fiz directa no chão de um aeroporto. Recebi a minha primeira mesada. Percebi que sou mais forreta do que pensava, mas que até sei e gosto de ser independente. Fiz uma tese de mestrado que me apaixona. Escrevi, escrevi, escrevi. Voltei a dançar num palco. Descobri que croissant de alfarroba recheado é o verdadeiro pão divino. Vi dois bailados ao vivo. Vi quarenta e seis filmes, uns no cinema, outros na ronha dos cobertores. Enviei trinta e cinco postais. Li treze livros. Impingiram-me teorias da demonologia. Cantei até me falhar a voz. Descobri o que amor pode ser escrito apenas com três letras diferentes. Tens concorrência forte dois mil e quinze, vamos tentar igual?

Momentos natalícios

Um bolo rainha, dois pratos de filhós, um de azevias de grão, uma caixa de biscoitos de gengibre, uma de canela, um prato de frutos secos e broas de mel, chocolatinhos com licor de ginja, uma mesa a transbordar Natal por todo o lado.

Momentos natalícios

Primeiro filme deste Natal cá em casa, quem adivinha, frozen?, sozinho em casa?, toy story?, natal da disney? Não, kill bill. Juro que somos todos pessoas normais.

Momentos natalícios

Então e as prendas, quando é que abrimos as prendas, que seca, quero abrir as prendas, nunca mais abrimos as prendas, e prendas, e prendas. Crianças chatas na véspera de Natal.