O que podia

Pior que cair do chão seguro são as dores do dia seguinte, o pedaço de coração desamado que chora a ausência do que estava uno, pior que o ponto final é o parágrafo de silêncios feito, interrompida a história que ficou por escrever pelas mãos do criador, pior que o amor que nunca poderá são as memórias do que podia e não foi, Há que saber combinar as conjugações verbais nos tempos certos, Ah malditas regras de bom português. E os oxímoros lógicos dos estilhaços vencidos, sentir a vontade de não querer sentir, querer estar longe à distância de um dedo, querer um prólogo depois do epilogo, querer prefixar um sufixo defunto, Limpa as lágrimas mulher, as boas memórias já ninguém te as tira. As memórias do que podia e não foi. Guardo-as agora preciosas nos intervalos que a chuva canta dentro do peito, envoltas em pétalas e lacradas a beijos.

Jardins de primavera

Leva-me onde as amendoeiras em flor são imunes às estações e os amores convulsam ao compasso das rolas.

Das compras de verão

Porque hoje me apetece ser muito menina-e-modas, é só para dizer que comprei um vestido comprido com um padrão tribal, lindo lindo lindo. E maravilha das maravilhas, nem vou ter de lhe fazer bainha. Foi tão feito à minha medida.

Das manias esquisitas

Quando já não posso ver livros à frente e estou à beira de estalar a pipoca gosto de tomar um duche. Nunca ando tão cheirosa como quando estou em exames.

É isto

Esta fase de exames me está matando aos poucachinhos.

Noite de teatro

Continuo a achar que muitos textos se saboreiam melhor quando os lemos no nosso canto quentinho do sofá do que vistos numa cadeira a uns quantos metros do palco.

Gelado

Beijos e corações oferecidos em natas frias.