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Os tempos verbais

Já não sei conjugar verbos. Uma tarefa primária tão simples, brincar com sufixos numa lenga-lenga infantil, eu brinco, tu brincas, ele brinca, nós brincamos, vós brincais, eles brincam, ora no antes, ora no agora, ora no depois, cada acção recheada de futuros e pretéritos, Professora, mas se a perfeição no homem não existe como é que podemos criar passados mais que perfeitos? Conjugamos verbos a cada momento, com um gesto, com um olhar, com um sorriso, com um toque, sem esforço, algo tão natural como adormecer quando as pálpebras pesam, e tornou-se quase um conflito para mim. Já não sei conjugar verbos e lembro-me do dia em que o esqueci. O dia em que o meu ser presente quis conjugar no futuro o meu eu passado.

A falta de inspiração

Esta sensação de querer escrever, mas não ter assunto nem inspiração, é-me tão familiar que já consegui encontrar um padrão no meu comportamento durante este momento de vazio mental. Primeiro, balas nervosas disparam na minha massa cinzenta para encontrar um tema, qualquer tema, sobre o qual construir frases minimamente coerentes. Segue-se um momento de frustração, vocalizo uma praga de gritos mudos e acabo por escolher um assunto aleatório. Harmonizo alguns vocábulos para formar semi-frases, junto algumas conjunções de ligação e apelo a nosso senhor para que o resultado não seja catastrófico. Pois eu não domino bem a técnica de apelo a nosso senhor, Delete. Volto ao primeiro passo e gasto mais umas quantas munições que me poderiam dar jeito num futuro próximo para pensar sobre coisas importantes. Desisto e acabo por escrever sobre a falta de inspiração e sobre o comportamento psicótico que me domina nesses momentos. O resultado? Isto.

A rosa

Ele não sabia que as rosas picavam. Já as tinha visto na varanda dos avós, num pequeno vaso de barro, vermelhas, brancas e amarelas, já as tinha cheirado até, Estranho, elas cheiram à minha mãe, mas nunca se atrevera a tocar-lhes, pareciam tão perfeitas, tão frágeis para se misturarem com a pele suja dos homens, A mãe diz que não posso cheirar os manjericos para não lhes roubar o perfume, e se eu tocar na rosa e lhe roubar a cor? ou a forma? não, não quero fazer isso. Os dias passavam e o fascínio do menino pelas flores do vaso de barro era cada vez maior, estava obcecado, apaixonado diriam as mentes mais românticas, tinha de lhes tocar, tinha de saber o que existia depois. Um dia ganhou coragem. Inspirou fundo, fechou os olhos, sentiu o perfume da mãe nas suas curiosas narinas, Um, dois, três, bradou um auch! incrédulo. Tinha imaginado tudo, a cor das pétalas a regar a terra seca, o caule a vergar-se lentamente, despedindo-se do sol com uma última vénia, com sorte mantinham-se iguais na sua beleza impenetrável, mas não aquilo. Subestimara as flores do vaso de barro e magoara-se. Pela primeira vez, o menino descobriu que as rosas picavam.

O comboio

Queria apanhar o comboio das nove, não o das nove e um quarto, não o das um quarto para as nove, o das nove. Às vezes chego atrasada, porque não sei o que vestir, porque o despertador também não gosta de acordar cedo, porque a torradeira engole as fatias de pão durante demasiado tempo, Despacha-te ou vais perdê-lo de novo, e perco-o. Às vezes estou na estação a horas certas e o comboio não passa, porque a maquinaria amuou e teima em não sair do sítio, porque a tempestade fez uma árvore ceder sobre os caminhos de ferro, porque o maquinista se sentiu mal nessa manhã, e também o substituto e o substituto do substituto, Senhores passageiros, informa-se que devido a problemas técnicos o comboio das nove não irá circular à hora prevista, e assim mais uma vez me despeço da estação de bilhete abandonado no bolso. Nunca consegui apanhar o comboio das nove. Talvez seja esse o nosso fado, gastarmos o mesmo caminho sem nunca nos cruzarmos, separados no lugar certo à hora errada.

Dos aniversários

A Rita acha anormal a minha relação com datas de aniversário, sei de cor as de amigos próximos, daqueles menos próximos e muitas mãos cheias de colegas. Desde que me digam uma vez em que dia vieram ao mundo, eu vou sabe-lo como sei o meu. Ela acha anormal porque são só números. Sequências aleatórias de números. Para mim, são mais um apelido. Sofia Varandas 14 de Junho. Pedro Correia 3 de Dezembro. Faz sentido, não podia ser de outra forma.

Dos Invernos

O chapéu de chuva diz mais sobre uma pessoa do que a roupa que veste. Investe-se um esforço maior nas coisas que se usam, todos os dias, todo o dia, pensa-se, calcula-se, Não cai tão bem como no manequim, põe-se de parte. O chapéu de chuva serve, logo o esforço empregue limita-se a padrões mínimos, latos, aquilo que cada um aceita usar. Há mais verdade aí do que no casaco de pele.

O 2013

Olhando para trás, nem tudo foi mau. Dois mil e treze deixa memórias de abraços apertados como coletes de força, E as vezes que um abraço me trouxe à tona, conto-as pelas mãos, amizades descobertas debaixo das pedras em que ridiculamente tropecei, pequenas vitórias que souberam a mel, porque antes de ganhar a guerra é preciso ganhar as batalhas que a fazem. Mas se um novo ano vai nascer nos Big Bangs festivos do céu da meia noite, que não herde as peripécias do que morre. Não quero mais lágrimas dissolvendo sorrisos, não quero mais chuva onde devia haver sol, não quero mais quedas em chão de mármore, não quero mais doença e cinzas. Não quero mais dois mil e trezes. Só dois mil e catorzes de lenço branco em punho.

A autópsia

Quem entrasse naquela sala diria que tinha experimentado outra era. Delicadamente, a mulher de meia idade vestiu a sua velha bata branca, cortina de algodão tingida de cansaço, e numa fracção de segundos, duas luvas de látex, as mais pequenas, as mais apuradas, gesto tão rotineiro como calçar os sapatos antes de sair de casa. Sobre a mesa de autópsias, um corpo mumificado, nu e indefeso aos olhos atentos da mulher, três mil anos de história ao alcance de um braço. Pegou no bisturi estendido na mesa de instrumentos e numa expiração demorada, como quem se prepara para um ritual de meditação, permitiu-se revelar os segredos escondidos naquele aglomerado de ossos e pele ressequida, vestígio de um corpo que outrora viveu, amou, sorriu e chorou, igual a si própria ou qualquer dos comuns mortais.

O candeeiro

Tenho um candeeiro na mesa de cabeceira. Quem o viu diz que não há peça de beleza equiparável, é de formas esguias e elegantes, tez de um branco reluzente, na cabeça ostenta um chapéu bordado à mão com uma perícia matemática, capuz esse que lhe aprimora o visual cuidado, Sortuda é o que tu és, quem me dera a mim ter um assim. Eles não sabem que o candeeiro não dá luz. Chego a casa, perturbo o equilíbrio do interruptor e nada, troco a frágil lâmpada abrigada pelo chapéu bordado e nada, todos os dias nada, sempre nada. E assim refugiada no espaço que é meu deixo-me existir, na escuridão triste do candeeiro que não dá luz, em coma sobre a mesa de cabeceira.

Das folhas caídas

Inícios de tarde a roçar a noite, horas de chuva e trovoada. castanhas assadas à porta de casa, chá de limão bem quente com uma colher de mel, cobertores e mantas de pelo macio, botas de gola alta, cachecóis. Eis a estação que me esfria as mãos e acalenta o peito.

Música é, logo existe

Música é amor em clave de sol, é remédio dos gagos de alma, quando a voz do coração quer e as palavras não dão. É cativeiro dos espíritos livres, dedos em cordas viciados sequestrando ouvidos a cada acorde desferido, Quantas semibreves são necessárias para raptar os teus?
Música é desejo e revolução, balas de cravos rasgando as ruas em staccatos de glória, porque o povo é quem mais ordena dentro de ti, ó cidade. É uma nesga de luz no Inverno do peito, quando o sangue chove e o frio aperta, quente quanto baste para derreter o gelo que anestesia o âmago dos corpos.
Música é silêncio quando tem de ser, o intervalo no caos de pentagramas cheios, porque o excesso também precisa de ausência como o dia precisa da noite, o branco precisa do preto, um oposto conferindo o sentido de ambos. É abcesso sem cura num bolsar constante, um pus chorado por coccus em êxtase, o bichinho da música dos dizeres populares.
Música és tu e eu, duas semicolcheias em legato unas, ladeadas por corações de bemol e meio.

No aeroporto

Naquela torre de Babel, ela esforçava-se por se manter inteira. As suas mãos tremiam finamente, cativas nos bolsos do sobretudo para que ninguém as visse, mas os seus olhos, esses, incapazes de esconder a tristeza perante a inevitabilidade fria do depois, Voo com destino a Paris, partida prevista para hoje, com atraso de um amor. Ele no seu fato camuflado destacava-se na multidão, ali o verde selva não o encobria, pelo contrário, transportava-o para um lugar de guerra pelos olhos alheios, tal como o bilhete que segurava entre dedos viciados em gatilho. No último beijo os seus lábios repetiram os movimentos do primeiro, Porque um fim pode ser um novo início,

- Um dia voltaremos a encontrar-nos neste mesmo lugar e continuaremos onde ficámos.

mentiu,

- Eu sei.

respondeu sorrindo, e ele soube que também ela mentia..

Das cores

Gosto de pintar o mundo a cores. Acordo, pinto o dia de azul bebé e amarelo adulto, esborrato uma mancha castanho queimado e vermelho framboesa se houver tostas para o pequeno almoço, outras vezes um borrão laranja se o meu pai tiver saído para o trabalho enquanto dormíamos, deixando um jarro de sumo fresco na bancada como que a dizer Bom dia meus bens. Saio de casa, salpico o chão que piso de preto e branco, preferia verde forte com uma pincelada magenta aqui, uma violeta acolá, mas quem inventou a calçada portuguesa quis combinar os extremos da fita cromática num xadrez rústico e assim respeito. Às vezes é inverno no meu peito e pinto o dia de cinzento, não há azul bebé nem castanho queimado, laranja ou amarelo adulto, apenas e literalmente 50 shades of grey, como uma fotografia velha à qual a luz e a humidade sugaram o contraste. Não gosto muito desses dias. Gosto mais de pintar o mundo a cores.

Dos inícios

Num sobressalto, acordei, algo tinha mudado no estrito espaço que me aninhara durante dias a fio. A mesma ausência de luz, a surdez habitual, o toque familiar das paredes quentes. Mas hoje o sossego era perturbado por uma sucessão de convulsões ritmadas que me sacudiam violentamente, o jogo da batata quente nas mãos irrequietas de uma criança. Tive medo. Sem pedir licença, um distante túnel de luz assaltou impiedosamente o meu quarto, os meus pequenos olhos verdes encadeados, senti-me sugada para um lugar infinito, forrado a cores e sons. Tive frio, chorei. Fui de súbito confortada por um colo de olhos verdes gémeos dos meus, sofridamente apaixonados, Como é possível desmesurada felicidade jorrar de tamanha dor?, sorriram-me e soube onde estava. Olá mãe.

O peluche

Ela adorava peluches. A menina dos caracóis ruivos dirigia uma colecção digna desse nome, uma ovelha de algodão para não dormir sozinha, um pequeno cão azul para fazer as brincadeiras de irmãos, um urso da sua altura como companhia às refeições, Não são muitos bonecos mãe, se cada um tem a sua função. Ela adorava peluches como todas as crianças, mas não era uma criança. A menina dos caracóis ruivos sentia que não tinha valor, vivia na solidão como a pedra descolada da calçada, a agulha no palheiro despercebida por todos e encontrada por ninguém. A menina dos caracóis ruivos dormia abraçada a uma ovelha de algodão e desejava não existir, brincava com um pequeno cão azul e quebrava sob preconceitos de gente grande. A menina dos caracóis ruivos era uma criança sem o poder ser, porque num acto de crueldade alguém lhe roubara a liberdade pueril da inocência.

Síndrome de abstinência

Os meus dedos desejam ansiosamente escrever, tremem de tanto quererem jorrar palavras numa folha de papel usada, rasgada nas pontas e rabiscada atrás, síndrome de abstinência criativa chamo-lhe, mas o meu cérebro não lhes dá nada, hoje entorpeceu.

Das maleitas

Os males de agora já não são os de antigamente. Temia-se a dor, a limitação, a morte por um mal definhante que desfigura o corpo na sua passagem para o outro lado, não, a morte já não assusta como a perda da perfeição, Que vincos são estes a prolongar os meus olhos?, Para onde foi a simetria e firmeza dos meus 20 anos?, porque a ruga tornou-se doença, a espinha tornou-se doença, a flacidez tornou-se doença, o caminho temporal do ser tornou-se doença, até ao dia em que a existência em si mesmo será a maior maleita de que o Homem padece.

No metro

Sentada no longo banco corrido do metro, espero e observo, enquanto um espectáculo de variedades se desenrola à minha frente. Quatro minutos e trinta, rapariga, 19 anos, calções de ganga desbotada e t-shirt branca estampada dos Beatles, três maçudos livros no colo, Estudante de certeza, talvez de direito? Não, literatura, é isso, tem ar de literatura. Três minutos e treze, homem, 41 anos, fato escuro completo e gravata azul petróleo, pasta de mão castanha de um lado, iPhone do outro,

- Estou atrasado Patrícia, o metro nunca mais chega. Mas vai-me tirando já os processos de hoje e deixa-os na minha secretária.

Advogado aposto, é tal e qual o meu tio. Um minuto e vinte e sete, mulher, 68 anos, saia preta pelos tornozelos e casaco de malha sobre os ombros, canadiana sob o braço esquerdo apoiando o corpo e o espírito, Insuficiência cardíaca, pelo cansaço cianótico, respiratória talvez, mãos encurvadas e deformadas, artrite reumatóide, vai a uma consulta, isso ou apenas mata o tempo antes que o tempo a mate a ela. Dez segundos, o quadro pincelado a óleo altera-se pela primeira vez, as personagens movem-se, as vidas pausadas retomam o seu rumo, todas menos a minha. Eu, sentada no longo banco corrido do metro com o primeiro conjunto que tirei do armário, continuo estoicamente à espera de saber quem sou ou para onde quero ir.

O fato

Não te apresses. Despe o fato com vagar, expulsa cada botão do seu lar, desfaz cada dobra que te aninha, cada vinco, cada nó, não temas o toque da luz em cada centímetro descoberto da tua pele, da tua verdadeira pele, Mas um mágico nunca revela os seus segredos... Colhe as lágrimas e os soluços com a mão, aperta-os com força e deixa-os morrer. Aqui não há segredos. Sabes que debaixo de cada fato, todos escondemos a mesma carne, a mesma dor, a mesma essência, como escondem as matrioshkas que tenho no móvel da sala.

Sim?

Quando era criança não havia mal em ser imprudente e ingénua. Agora já não me posso dar a esse luxo, dizem. Sou uma pessoa crescida e as pessoas crescidas têm de ter juízo e deixar os sonhos impossíveis e as loucuras no passado, onde eles pertencem. Okay, aceito. Mas não posso ser criança só mais um bocadinho?