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O dia da mãe

Naquela noite fúnebre era dia da mãe. Na cozinha, uma mesa com quatro lugares, três deles ocupados por vultos de traje negro, dois pequenos de olhar fosco e feições de mármore, um maior de jeito vencido e aliança no anelar direito. No lugar vazio a aliança par, de lúmen oco. Pela primeira vez era dia da mãe sem haver mãe, fora levada de madrugada por uma dor na nuca e um ai! tão veloz que não deixou espaço para O que se passa queridas ou cento e dozes, duas letra e a luz tomou-a nos braços, assim, como um soluço que vem sem avisar, faz o seu trabalho e dissipa-se, deixando apenas uma sensação de surpresa incrédula à sua passagem.
- Nem houve despedidas, pai. É tão injusto.
- Ela despediu-se o melhor que pôde.
Era o último ditongo da mãe, um adeus, um sejam felizes, um amo-vos muito no ai! que deixou o lugar vazio na mesa para quatro.

A memória

- Eu contava-te a minha vida toda se a recordasse por inteiro, mas grande parte já não me pertence, a memória é uma coisa terrível, sabias? Come com gula as horas boas e más e quando já está de estômago cheio de sorrisos, entrega tudo às asas dos mochos para ser semeado numa planície distante, já imaginaste que algures nesta esfera de homens cresce uma plantação de existências abstractas, longe dos corpos e das mentes a que já não pertencem? Onde os guiões de tantos brotam da terra fértil para serem vividos uma última vez num auditório a céu aberto? Não temas, minha filha, os mochos não levam tudo, deixam recortes de película que ainda se movem em filme, tenho o colo da minha mãe no primeiro dia de escola, o primeiro beijo clandestino do teu avô, no canto inóspito do liceu igual ao que todos os liceus têm, os teus dedos pequeninos no dia em que o mundo te abraçou. Os mochos caçam-nos as repetições, mas deixam para trás os primeiros, são os que estão mais presos aos ossos, é preciso somar força e persistência. Escuta, vou contar-te um segredo, ainda tenho muitas histórias escondidas em sítios onde os ladrões não chegam, há muitas palavras que a minha pele tem. Mas nunca aprendi a ler rugas nem braile e os meus dedos já não lhes chegam, talvez um dia com os teus dedos pequeninos as soltes de onde se perderam. Talvez um dia nos tragas todas as histórias por ler.

As metáforas

As metáforas também estragam. É bom sentir as coisas como elas são e não como outra coisa qualquer, gosto de comer arroz que saiba a arroz, de rosas que cheirem a rosas, gosto de ver o céu tal como um céu deve ser, gosto do amor cru com sabor a si mesmo. Não me apetece encobrir conceitos com outros conceitos, adjectivar de forma plástica palavras que não o merecem, quero que tudo seja o seu propósito inicial. Hoje não sou metáforas. Hoje não quero palavras transgénicas.

A biblioteca

Todas as manhãs às sete horas exactas, o despertador cacarejava, revirava-se nos lençóis, uma pancada suave no stop e em menos de dois suspiros estava a pé. O café com leite e um pau de canela, as torradas em pão de forma cortadas em tiras de mel, dez minutos até o estômago se mostrar de sorriso cheio. Vestia-se na rapidez de um soluço, como se a pele que lhe forrava o corpo não suportasse o abraço do ar terrestre. Saía de casa às sete e meia sem falta, nunca depois, o ritual só se via cumprido na totalidade se a sua chegada assistisse à abertura das portas do palácio dos livros. Sentava-se na cadeira da almofada azul, ao lado do vaso de loiça oriental, enquanto preparava Chopin para lhe sussurrar aos ouvidos. Hoje caminhava à prateleira dos f's, todo o alfabeto para trás já o tinha gasto com os seus olhos avidos de letras. Adquirindo o seu jeito de conforto, pernas cruzadas à chinês para não destoar da loiça, assim permanecia horas a fio, concentrada nos retalhos de história que alguém tinha cozido para si. Não havia minuto desperdiçado por distrações até ao momento das luzes dormirem no silêncio das pessoas ausentes, Já sabe que vamos fechar daqui a nada, amanhã pode acabar a leitura. E com a sua partida assistindo ao fecho das portas do palácio dos livros, regressava ao pequeno mundo exterior, onde os limites eram feitos do real e do finito, para repetir tudo no dia seguinte.

A maleita

- Coisa bizarra, nunca vi nada assim.
Era o vigésimo primeiro consultório em que entravam e as respostas seguiam sempre os mesmos carris, Isto ultrapassa-me, Não a posso ajudar, Está fora dos meus saberes, O caso mais estranho que me apareceu em todos estes anos de trabalho. Vinte e uma forma diferentes de ferir o já mirrado coração de mãe, afogado de preocupação, cada vez menos capaz de se erguer a cada não sei tropeçado no caminho. Nem sempre fora assim, Nasceu de contornos e funcionamento perfeito, dois globos cor de avelã no lugar dos olhos, os dedinhos em número certo, cordas vocais bem afinadas. A perfeição congénita vacilou aos nove anos, poucas semanas após a morte do pai, uma dor no peito, um ai! súbito, uma rendição do corpo, perdedor sem vida no chão do quarto. Contam-se agora cinco anos, três meses, dezassete dias passados desde o início do sintoma primário. Ainda hoje a menina chora pétalas de rosa.

Assim te espero, amor

O tempo escorre, amor, enquanto espero por ti,
Como escorrem as lágrimas em fios sem fim.
Palavras mudas chamando o teu nome,
Abraços ausentes entregando-me à fome.

- Bom dia senhora, viu o meu amor?
- Lamento menina. Mais alguma coisa?
- O jornal do costume e um café, por favor.

O tempo arde, amor, enquanto espero por ti,
Ardendo com ele a tua metade de mim,
Reduzida a cinzas, a pó, a nada,
O cigarro esquecido na cigarreira quebrada.

Fazes-me falta, tanta falta, amor,
Cortaram-nos os laços,
Trouxeram-me a dor.

O tempo morre, amor, enquanto espero por ti,
Assim morrem os relógios no quadro de Dali.
O retrato do nós eternamente guardado,
Num envelope infeliz com um beijo lacrado.

O medo da morte

Foi numa noite de céu limpo que ele deixou de ter medo da morte. Na verdade, ele não sabia o que era a morte, até então nunca a tinha visto, tocado ou cheirado, e o conceito abstracto do nada depois do tudo era demasiado inverosímil a um cérebro de folha verde, Simplesmente adquiriu o medo por osmose, Não pode ser coisa se quem já a viu passou a chorar negro e a tremer cada vez que essas cinco letras se reúnem num rugido estridente. Naquela noite de céu limpo via-se uma cidade de estrelas, salpicos de luz gémeos num universo acima do nosso. Não, reparou, nem todos eram iguais,
- O que é aquele ponto gordo mais brilhante que os outros?
- É uma estrela prestes a morrer, filho. As estrelas são mais bonitas quando morrem.
No uau! que lhe brotou dos lábios, percebemos que a partir daquela noite de céu limpo ele nunca mais teria medo da morte.

O espirro

Naquela tarde éramos só nós os dois atrás do pavilhão grande, aquele onde as aulas eram apenas para os anos maiores, a letra E estampada a verde na parede esquerda, uma figura de azulejos na direita. Pegaste-me na mão como se os meus dedos de porcelana tivessem de ser protegidos de uma queda irreversivelmente fatal,
- Gosto muito de ti. Queres namorar comigo?
Era a nossa primeira vez no coração museu por isso namorávamos, não andávamos, andar era para os visitantes assíduos que já conheciam de cor os corredores da casa. Espirrei um não. Queria dizer sim, também gosto muito de ti, mas de repente espirrei, sem aviso, sem intenção, não estava doente sequer, espirrei e escapou-me um não. Queria dizer sim, ou talvez fosse apenas impressão minha, como aquela comichão que se tem no nariz e sustemos a respiração, mas depois relaxamos e quando parece que o espirro já não vem, atchim! e ele sai disparado, não a impressão-que-queria-ser-espirro mas o real, o não que eu não estava à espera.

Os biscoitos de canela e noz

Agora somos dois na caixinha dos biscoitos. Dois biscoitos de canela e noz, em tempos passados nos ares da amargura, pensando-se secos e sem sabor, insípidos ao gosto que qualquer boca. E se calhar tudo começou por consequência disso, por já não sabermos o que éramos, se um bolinho viçoso e merecedor de ser cuidado numa embalagem forrada a carinho e beijos, se apenas um monte de migalhas mal unidas, quebradiças de tanto tempo a cozer no forno, de base queimada e sem sustento. Agora tenho sustento, desde que me és. As migalhas já não estão soltas, o cheiro a canela ganha vida a cada dia que passa, é a felicidade a brotar dos minúsculos poros da farinha-terra. Somos amor, confiança e respeito, e ainda bem que assim é, ou o sustento da base queimada já não seria tão sustento assim. Não há nada que me deixe de sorriso mais cheio do que poder partilhar a mesma caixa em coração contigo, a mesma vida de bolinho gourmet, a quem nem as dentadas do olhos são capazes de levar bela essência. Se as rochas e lamas malignas que se me atravessaram à frente foram só para te chegar, então não lhes chamo rochas e lamas, são só irregularidades do caminho. Estrelas cadentes o tanas, amor é biscoitos de canela e noz.

As palavras cruzadas

Pessoa vigia o café que arrefece sobre a mesa enquanto eu te encontro nas palavras cruzadas do dia anterior, dois vertical, quatro letras, inclinação da alma e do coração. Por cada letra desenhada, um arrepio da pele virgem à vida recém nascida, só a novidade dá permissão ao êxtase, mesmo aquela que então rotina se tornou, cinco horizontal, seis letras, sentimento de satisfação do ser. Os finos lábios da esferográfica azul selam à confiança o carvão impresso, enquanto os meus querem os teus num beijo de fogo húmido, vês como até a chama mais quente pode molhar?, e conduzidos pela vontade ao teu corpo se arrastam, adivinhando o caminho sem errar, como não sei, talvez apenas se desloquem para o lugar onde pertencem, dois horizontal, seis letras, sentimento intenso de atracção. As palavras agora completas tornam-se unas na história que esboçam, o romance que repetidamente contamos no silêncio da noite, três vertical, sete letras, narração histórica em versos simples de assuntos do coração. O céu escurece, o café arrefece e eu sorrio, por te ter encontrado nas palavras cruzadas do dia passado, sob a vigia apertada de Fernando Pessoa.

Do 2014

Comecei o ano com cirurgia, ou como quem diz com o pé esquerdo. Juntei-me a uma nova turma. Tive medo de ser rejeitada. Achei que já era capaz de enfrentar os meus medos sozinha. Vacilei e voltei à felicidade fingida do casulo. Ganhei juízo. Apresentei o meu primeiro poster científico num congresso. Não levei o prémio, mas fiquei entre os três melhores. Perdi a minha dança do coração no dia em que me vi pronta para a retomar. Atrevi-me a fazer rir públicos de microfone em punho. Escrevi stand-up, páginas de stand-up. Fizeram-me fumadora passiva durante horas a fio. Resolvi pontas soltas de laços desapertados, mas não todas com pena minha. Percebi que as pessoas especiais descobrem-se nas circunstâncias mais negras. Aconteceram-me os amigos de uma vida. Vi dois concertos do Zambujo sem pagar um tostão. Beijei sob o frio da chuva. Chorei sob o frio da chuva. Vi uma psicóloga na minha mãe. Assisti pela primeira vez à ante-estreia de um filme. Fui feliz na Eslovénia. Provei gelado de raffaelo. Viciei em gelado de raffaelo. Partilhei quartos, segredos e uma garrafa de azeite. Fiz directa no chão de um aeroporto. Recebi a minha primeira mesada. Percebi que sou mais forreta do que pensava, mas que até sei e gosto de ser independente. Fiz uma tese de mestrado que me apaixona. Escrevi, escrevi, escrevi. Voltei a dançar num palco. Descobri que croissant de alfarroba recheado é o verdadeiro pão divino. Vi dois bailados ao vivo. Vi quarenta e seis filmes, uns no cinema, outros na ronha dos cobertores. Enviei trinta e cinco postais. Li treze livros. Impingiram-me teorias da demonologia. Cantei até me falhar a voz. Descobri o que amor pode ser escrito apenas com três letras diferentes. Tens concorrência forte dois mil e quinze, vamos tentar igual?

Os beijos e castanhas assadas

Sentados nos degraus do passeio gasto pela luz das estrelas, guardamos outonos de romance nos dedos entrelaçados. Árvores desfazem-se da vida que secou, diluída agora num manto mostarda-triste que geme sob os passos deixados pelos náufragos da Cidade das Avenidas Largas, Promete-me que o que temos não é feito de folha caduca, que nunca teremos de enfrentar invernos de troncos despidos da chama que é nossa. A minha cabeça quebra sobre o teu ombro, o único a que pertence e onde ganhou lugar cativo, num encaixe exacto de contornos ósseos que finalmente conheceram o yang sumido, Onde estiveste todo este tempo, meu amor? Perdido nas primaveras dos afectos, nos dias bipolares das chuvas atrozes e dos sóis tórridos, nos tempos anafiláticos e inconstantes do peito, perdido de mim e de ti, perdido de nós. Na Cidade das Avenidas Largas, uma chuva miúda cai sem pedir licença, rasgando a tela de pedaços de céu que se pintou sem darmos conta. Trocamos beijos-de-castanha-assada, partilhadas do mesmo cartuxo com as notícias da véspera agora cobertas de fuligem e cadáveres de casca, Guardemos outonos de romance, meu amor.

As metades

Nunca mais conseguiria viver a metades. Meios lençóis por aquecer, meio armário por vestir, meio perfume por cheirar, meios diálogos por ouvir, as meias coisas corroíam-lhe a medula como térmitas famintas por lascas de pau. Inteira, apenas a mágoa com quem dormia, essa sim nunca o abandonava, fiel amante de todas as horas, o prognóstico das meias-vidas. Faltavam-lhe os olhos que o liam de cor, tom de mel, melancólico melaço das madrugadas sós, as mãos que um dia aqueceram meios lençóis, vestiram meio armário, cheiraram meio perfume, terminaram meio diálogo.
De coração tremulo e voz palpitante, pegou no telefone em repouso ao seu lado.
- Perdoa-me amor. Preciso-te.

A decadência

Perdemos o orgulho no tempo. Já nada existe para durar, telemóveis de tecnologia ímpar que morrem entre dedos num par de anos e não importa, porque mais virão, mais e melhores, restaurantes à escura luz, lenha em cinzas largada num canto do fogão em lágrimas, porque esperar já não é um valor, comida rápida, comida pronta, estômago cheio. O compromisso? Esse fecharam-no à chave no baú das recordações, o caixão das almas penadas que não resistiram à corrida das relações cruas, do álcool e dos pós, do sexo vazio, das mãos loucas cravadas num corpo convulso. Da manhã ébria desfeita em cacos de linhas curvas sem encaixe. A estabilidade é língua morta. O amor sufixo defunto.

O reflexo

Um dia notei que tinha perdido o reflexo. Olhei-me ao espelho para aprumar o colarinho da camisa e a minha imagem gémea não apareceu, esticando convictamente com ambas as mãos o tecido que cercava o meu pescoço, Não é possível, devo estar ainda a dormir, esfreguei os olhos com força, talvez ela estivesse presa debaixo das minhas pálpebras e precisasse de ajuda para voltar para o outro lado do vidro, sem sucesso, o espelho continuava deserto, sem vivalma para repetir os movimentos dos meus dedos, dos meus olhos, dos meus lábios, senti-me vazia, O que me aconteceu? Fugi de mim e deixei-me oca por dentro? Olhei com atenção. Uns contornos com forma humana surgiam muito ténues, afinal estava lá alguém, muitos alguens até, vi a minha mãe com o seu sorriso doce, vi o meu pai com olhar autoritário, vi a Mariana, o João, a Mara e o Pedro com um amor escrito no peito, vi-me desconstruída nos pedaços que cada um deles ofereceu para criar aquela que agora estica com ambas as mãos o colarinho vincado da camisa.

A velha

A velha a quem chamam velha sente o dever cumprido na pele que descai com o peso do tempo, suspira um mesmo a horas, esboça um leve sorriso. Já não teme o inevitável chegando cedo demais, na carreira 736 que passa no outro lado da rua, o lado para onde recusava ir sem deixar a sopa ao lume, a casa aspirada, a cama feita de lavado, os filhos criados e os netos mimados. A velha a quem chamam velha, no sofá de brocado vermelho espera o marfim de capuz preto da 736, Truz truz, Quem é? É a morte, A morte quem? A velha a quem chamam velha ri-se. Brincam ela e a morte como dois cachorros que se abocanham sem malícia até que um ceda ao cansaço, estendido no chão, gritando ganhaste.

O que podia

Pior que cair do chão seguro são as dores do dia seguinte, o pedaço de coração desamado que chora a ausência do que estava uno, pior que o ponto final é o parágrafo de silêncios feito, interrompida a história que ficou por escrever pelas mãos do criador, pior que o amor que nunca poderá são as memórias do que podia e não foi, Há que saber combinar as conjugações verbais nos tempos certos, Ah malditas regras de bom português. E os oxímoros lógicos dos estilhaços vencidos, sentir a vontade de não querer sentir, querer estar longe à distância de um dedo, querer um prólogo depois do epilogo, querer prefixar um sufixo defunto, Limpa as lágrimas mulher, as boas memórias já ninguém te as tira. As memórias do que podia e não foi. Guardo-as agora preciosas nos intervalos que a chuva canta dentro do peito, envoltas em pétalas e lacradas a beijos.

As leis da Fisica

Não há amores novos de raiz. Há uma massa x com y*z partículas de amor dentro de quatro cavidades fechadas a vácuo que se recicla, Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, amores velhos, usados, que já não servem um nós ou um nosso não escapam, não morrem, ficam senescentes à espera de um toque alheio, um olhar estranho, uma voz nunca escutada que os molde a uma outra face, saem então da aurícula, enchem-se de ar puro, retornam ao ventrículo e aí vivem, crescem, rebelam-se, esgotam-se. Repete-se o ciclo. A mesma massa de amor, as mesmas cavidades, a transformação contínua de uma equação matemática nas suas equivalentes.

O poço

Fui irresponsável. Não acreditei se me diziam,
- Não és diferente de ninguém, também tu podes cair no poço.
- Não, os poços foram feitos à medida dos outros e eu não me desequilibro.

Mentira, cada casa tem um poço e o meu tem-me a mim, lá no fundo onde cresce o sujo e o podre, onde a noção do espaço e do tempo, do tu e do eu deixa de fazer sentido, onde o monstro Medo com os seus dedos longos e viscosos algema mãos e pés, come o ar que vibra nas cordas vocais, e eu definho impotente, enchendo o poço de lágrimas até uma mão amada e assertiva me gritar o estúpido de me deixar morrer afogada na minha própria covardia. Todos temos um poço, todos temos uma mão, Pára de chorar e confia, ergue-te! sou feliz outra vez.

O 29 de Abril

Um amor de mil anos não tem morte pacífica. No fundo, nunca chega a morrer por completo, descansa em estado vegetativo, latente, uma única luz acesa numa mansão esquecida, Daqui não arredo pé!, sussurra-me ela confiante, ali pequenina, cor de sol brilhante, como a luz de presença que acompanhou os meus sonos de infância. Eu tenho orgulho nela. Gosto que persista, gosto que não se tenha deixado tornar ossos e monstros de lodo por mãos sujas alheias. Não se tira a dança a quem a acolheu no sangue.